quinta-feira, 9 de abril de 2009

Lembranças de um pequeno burguês

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E procuro agora a raiz
engenho do meu ser
mamãe me ensinava a ser feliz
querer, escolher, querer
apuros da ingenuidade

Papai mestre da infelicidade
ministrava o não-ser
insubmissa ordem do dever
tirou-me a passividade

Foi um crescer sofrido
mas não insosso
tempero ardido
rebelde bom-moço

Daquele idílio operário
tudo, tudo se desfez
até o mais ralo desse colorário
abandonou-me a crítica de vez

E cai o muro
o sonho tinha seu hemisfério escuro
o que resiste é estupidez
e essa vergonha de ser pequeno burguês

quarta-feira, 8 de abril de 2009

PARATÍ

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ENQUANTO TE ESPERO

É longa a espera por ti
Assim, lentamente, tonto de ansiedade
fico a dissecar teu ser

Começo a desmontar tuas partes
a ver o complexo do teu ser orgânico
a conhecer teu intrínseco

Da metodologia da investigação
primeiro é saber se por trás dos teus verdes olhos
enxergas o outro e o mundo colorido
e, pois, se com cor a visão não é míope

Segundo é constatar, na retaguarda da visão
o que dá consistência ao que vislumbras
além da névoa dos sonhos e da ilusão

Faço assim – depois nenhum rigor mais
Procuro, então, pelo mecanismo que faceia teu rosto
suaviza teu beijo e lhe dá um gosto etéreo

E mais:
estudo o comando mágico
que regula a maciez do teu toque
Por último, tento descobrir a fonte líquida do teu cheiro

E tu chegas e me cura.
Eu te remonto e, sem desvendar
o segredo da tua essência, vou te amando.

terça-feira, 7 de abril de 2009

PEQUENINOS

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CRESCE UM POETA

Quando eu for poeta
quero ser Machado de Assis
um grande romancista
que ser Manoel Bandeira
um grande cronista
quero ser Olavo Bilac
Cassiano Ricardo
Cecília Meireles
Castro Alves
grandes poetas
Mãe ! qual o seu poeta preferido ?
É o Carlos Drumond de Andrade
Vou ser igual a esse aí, viu Mãe ?
Mãe ! me ensina a ser poeta ?

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MAMÃE, SOU EU ?

Mamãe, sou feio ?
Não queridinho, quem disse ?
Minha testa é grande !
Não é não!
Cabelo ralo !
Só muito lisinho !
Nariz torto !
Afiladinho !
Beiço fino!
Boquinha delgada !
Queixo pontudo !
Queixinho lindo !
Olhos esbugalhados !
Muito vivinhos !
Mamãe, sou feio !
Nenê fofinho !
Que magreleza !
Melhor que gordinho !
Pés chatos !
De anjinho !
Mamãe, eu sou lindo ?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

POESIA EM TODO LUGAR

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Onde tem poesia ?

Vamos brincar de encontrar
onde tem poesia
de noite e de dia
em qualquer lugar ?

Pois bem
observem as cores
que pintam as flores
mas olhem bem

Agora sintam o vento
que gira catavento
faz pipa voar
e árvores balançar

e as gotas de chuva
o doce da uva
o sol da manhã
morder a maçã

Seu cãozinho latindo
seu gatinho esticando
você brincando
a mamãe chamando:
o almoço está esfriando !

Quando chega a hora
você vai à escola
tem prova, e agora ?
quem estuda não cola

Colegas e amiguinhos
se vendo se falando:
tem gente que está namorando !
mas ainda são tão novinhos !

E de noite , quem tem medo ?
tem gente que dorme tarde
tem gente que dorme cedo
Olhe quanta estrela no céu
são tantas que parece véu

E o sono chegando
seus olhos fechando
um sonho vai entrando
o breu cobre a folia
Ai, boa noite poesia !

domingo, 5 de abril de 2009

POR UNS OLHOS CLAROS

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PEQUENA SEDUÇÃO

Fulguram luzes, viajam leiseres
quando teus olhos procuram
o objeto dos teus desejos.
Os teus olhos curam !

Citilam cores femininas
riscam o éter estrelas luzentes
Como o céu lhe entrou pelas retinas
menina ?
Mirá-los ( teus olhos)
é impacto de astros cadentes

Porque me olhas de um jeito
penetra meu couro
me arde o peito ?

“Tolo, é só uma pequena sedução
provoco a ti, às vezes
para disparar meu coração”
dizes

sexta-feira, 3 de abril de 2009

EXISTÊNCIA

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INSULTO À EXISTÊNCIA

Afora o que amealha a riqueza
afora o que agride a violência
afora o que alcança o talento
afora o que afortuna a sorte
da emoção ao contento
resta um esperar lento
do nascimento à morte
resta com muita certeza
um insulto à existência
um existir medíocre
um viver biltre
de atrofiar a beleza
de cultuar avareza
nascer sadio e morrer doente
de corpo e mente

intacto dote de sentimentos
desperdício
esperança impacto da rebeldia
suplício
resposta ao chamamento
palavra
a boca chama
grito
o tempo crava
sangue
muros da covardia
limite

afora o que a ousadia
permite
tudo não feito
encerra
nesse corpo perfeito
alimento de terra

quinta-feira, 2 de abril de 2009

PORQUE PORQUÊ POR QUÊ PORQUE ?

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PORQUÊ DE TUDO

Mira teu olhar agudo
onde há convicção e clareza
mas mira atento e mudo
veraz o olhar absurdo
desconstruir a certeza
Acabou teu tempo de surdo

As coisas te farão barulho
como um imenso vagalhão
expostas ao esbulho
as verdades desaparecerão
nada mais soará razoável
mesmo o mais provável !

Em tua cabeça onde havia
uma fé reprovável de se ter
uma semente de sabedoria
pedirá para brotar e crescer
uma fome rotunda de saber
pedirá o por quê
porque tudo assim seria

Porquê de tudo não há !

Há sim nessa criação
um curioso descompromisso
com a verdade e a informação
qual se Deus fosse omisso
sobre o ser e a existência

E o tudo é experimental

ser, viver, saber, morrer
porque o limite é fundamental ?